A PÁTRIA DE CHUTEIRAS , HERÓIS E CULPADOS ...

Olá , amigo leitor da VIVA.  Enquanto as entidades oficiais estudam o retorno cuidadoso das competições profissionais, voltemos ao assunto que sempre nos reúne: o esporte, desta vez o mais brasileiro deles.

Na virada das décadas de 1940/50 nossos antepassados adotaram definitivamente para si o conceito de que aqui era o País do Futebol.   Isso fazia bem para a auto-estima das pessoas (principalmente as mais simples e humildes) e trazia orgulho e esperança aos nossos conterrâneos. Foi nesse período que tivemos a inauguração do histórico estádio do Maracanã, o então maior do mundo (parece que gostamos dessa mania de grandeza).  

O que seria um motivo adicional de orgulho tomou proporções de “catástrofe”. Tudo estava preparado para a comemoração de nosso primeiro título mundial (conquistando a tão desejada Taça Jules Rimet) mas faltou combinar com os uruguaios , originando o que receberia o cruel apelido de “Maracanazo”.  Até hoje lembramos com pesar de 16 de julho de 1950, o dia em que todo o país ficou em silêncio .

Foi apenas na Copa de 1958 que o imortal Nelson Rodrigues abordou o tema da “Pátria em Chuteiras” (ou de ...) , ajudando o brasileiro a tentar superar seu “Complexo de vira-latas”, mais uma do famoso cronista.  Coincidentemente o estádio recebeu tempos depois o nome de seu irmão , o jornalista Mário Filho.  Mas voltemos ao título de hoje : em pleno processo de frustração nacional resolveram que era preciso eleger um culpado.  Coube ao último obstáculo , o goleiro Moacyr Barbosa , carregar sozinho e eternamente esse peso.  Com sua carreira profissional iniciada no Clube Atlético Ypiranga , uma das equipes fundadoras da Federação Paulista de Futebol e berço de diversos craques , Barbosa teve seu auge defendendo as cores do principal elenco do país na época , o Vasco da Gama.  Foi campeão pela equipe carioca e também conquistou títulos pela seleção nacional antes do episódio que marcou seu destino. Atuou ainda por alguns anos tentando recuperar-se , resgatar a dignidade e demonstrar para si mesmo que não merecia tal estigma. A respeito de Barbosa , assim escreveu o fabuloso cronista Armando Nogueira : 

 

“Certamente, a criatura mais injustiçada na história do futebol brasileiro.  Era um goleiro magistral.  Fazia milagres , desviando de mão trocada bolas envenenadas .  O gol de Ghiggia na final da Copa de 50 caiu-lhe como uma maldição.  E quanto mais vejo o lance, mais o absolvo.  Aquele jogo o Brasil perdeu na véspera.”

 

Moacyr Barbosa terminou seus dias na pobreza, morando na casa humilde de uma filha adotiva e dependendo da ajuda de amigos. Se estivesse vivo ele estaria completando 100 anos neste 2021, dos quais 50 foram acompanhados por essa tristeza e sentimento de injustiça. Foi talvez o único caso em terras brasileiras de condenação perpétua .

 

 

Prof. Ari Grassia Junior é radialista, formado em Educação Física pela USP , com especialização em Voleibol , Futebol , Tênis  e  Xadrez .


 

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